Nascimento do Vinícius

O texto abaixo foi escrito pela própria parturiente Dhandara Capitani e foi mantido na íntegra.

Antes de tudo, eu vou começar este relato contando aquilo que eu mais queria saber quando estava gestando os meus dois meninos: deu tudo certo!! Os dois nasceram de partos normais e naturais, fortes e saudáveis. O Rafael nasceu em 2013, num parto que começou em casa mas acabou com transferência para o hospital, por conta de uma bolsa rota prolongada e por ser o protocolo na época. O Vinícius nasceu em 2017, em casa, na água, e junto com o seu nascimento eu realizei o sonho de recebê-lo nas minhas mãos. Fui eu que aparei o meu bebê enquanto saía de mim, com seu irmão junto, com seu pai vendo, com a equipe de enfermeiras obstetras e com o privilégio de ter sua estréia registrada pela talentosa Michelli Crestani.
Parir é uma experiência linda e insubstituível. Pela minha experiência, acredito que seja um excelente modo de preparar a mulher para seu novo papel de mãe. Desde muito pequena eu tinha vontade de ser mãe e eu sabia que queria sentir tudo que viesse junto com a gestação. Eu tinha em mim a curiosidade de sentir e saber como era cada fase, cada sensação. Eu não tomei remédios pra enjoo, por exemplo, porque eu aceitava o enjoo como parte daquela aventura, que seria tão curta. Há um poema da Elizabeth Bishop que diz: “The art of losing isn’t hard to master; / so many things seem filled with the intent / to be lost that their loss is no disaster” (a arte de perder não é difícil de ser dominada; tantas coisas parecem cheias da intenção de serem perdidas que sua perda não é nenhum desastre), e a gravidez é uma dessas coisas, que já começam com hora de acabar, por isso eu sempre pensei que não havia razão para lamentar o que fosse de desagradável, afinal, a data de fim é bem clara. Mais ainda, a vida só existe de forma integral. Não há como ser só feliz porque não é assim que a natureza existe e funciona. A vida não é pasteurizada. Quando me desejavam um parto rápido eu sempre brincava que eu não queria um parto rápido, eu queria sentir tudo que um parto tivesse para me proporcionar, e se fosse dor, que fosse, então, dor. E não, mesmo tendo meu parto não-rápido, como eu queria, mesmo depois de um trabalho de parto com 33 horas de bolsa rota e pelo menos seis horas de expulsivo, eu não desejaria nada diferente XD
 Quando eu engravidei pela primeira vez, o que eu mais queria era poder escolher o que fosse melhor para o meu filho. Mesmo com a enorme curiosidade de saber como era um parto (se doía tanto assim mesmo, como eu agiria, como era a sensação de um bebê saindo da gente), o meu objetivo era dar o melhor nascimento para o meu filho. Não tive dúvidas de que a melhor forma daquele novo ser humano chegar à vida extrauterina era através de um parto normal e natural — sem drogas ou químicos envolvidos. Esse era me propósito. Para mim, mais importante do que ser o “meu” parto era ser o nascimento DELE. No meu entendimento, as necessidades dele, de um nascimento pleno, estavam (muito) acima das minhas, e era disso que eu me lembrava durante todo o processo. O enorme apoio que eu recebi do meu marido foi lindo. Desde o início, o Rafael me apoiou em tudo, assim como no TP e depois.
Contudo, mesmo com a maioria das pessoas se impressionando com o tempo que o parto durou, eu tinha algumas coisas que eu não conseguia aceitar. Por tempo demais eu pensei que eu não fosse uma “boa parideira”, porque não fiz meu filho nascer mais rápido — afinal, esses elogios são feitos sempre para as mulheres que conseguem ter partos rápidos. Eu queria muito ter aparado o meu filho enquanto ele saía de mim, mas ele nasceu sobre as mãos do obstetra (eu estava deitada na cama quando ele nasceu, com cãibras nas duas pernas, e o obstetra que segurou ele) e, por um tempo demais, também, eu pensava que o médico que havia “feito” o parto — sendo que isso não existe: quem faz o parto é a mãe.
Enfim, quando eu e meu marido começamos a alimentar a ideia de um novo bebê, surge mais uma gestação, de surpresa. Para esse parto pudemos nos preparar e esperar o bebê de forma bem diferente. Eu me sentia muito preparada, porque eu era uma MÃE parindo seu filho. Dessa vez, eu já havia aprendido a falar de maneira clara tudo que eu quisesse e precisasse durante o TP. Combinamos tudo com a equipe e que eu guiaria todo o parto, com as enfermeiras intervindo apenas se houvesse alguma necessidade.
Como o Rafael filho nasceu com 36 semanas de gestação, eu e o Rafael pai esperávamos que o Vinícius também não completasse 40 semanas de gestação. Nosso pequeno escolheu as 39 semanas e 4 dias pra vir ao mundo, fazendo o pai e a mãe dele esperarem pelo menos umas três semanas “extra”. Por três semanas eu tive pródromos que se intensificavam à noite, dormia com a vontade de ser acordada por contrações mais fortes durante a noite, mas nada: acordava de manhã, sem pródromos. Foi quando na madrugada do dia 14 eu acordei às 3h com contrações ritmadas. Contamos as contrações e estavam 4 a cada 10 minutos, durando mais de 1 minuto cada uma. Ligamos para a equipe, para a fotógrafa e para a nossa prima, Milena, que viria cuidar do Rafa filho. Parto domiciliar é algo muito lindo. É como uma festa muito, mas muito especial, que você só convida quem vem com o maior amor do mundo para estar contigo. Foram assim as primeiras horas do TP para mim. Ficamos pela sala, pela cozinha, eu andava, comia, o Rafa filho comia o chocolate que era pra ser meu (lição da maternidade: não existe “meu” quando se trata de doce hehehehe) e, quando vinham as contrações, eu me agachava, deixando pra gravidade o serviço de ajudar a dilatar e afinar o colo do útero. Durante todo esse processo eu fazia o que eu queria, com a liberdade que só se tem em casa e bem assistida: eu sentava quando eu queria, eu me abraçava no meu marido, eu cheirava o cabelinho do meu filho mais velho, eu deitava, eu me ajoelhava no chão. Nesse tempo, a minha linda doula Thaís Zanella ia atrás de mim, me acompanhando em agachamentos e andações pela casa, com a devoção que só uma mulher que entende, respeita e admira profundamente outra mulher parturiente consegue ter. Depois de um tempo, quando a dor começou a pegar mais forte, eu pedi para a enfermeira obstetra Honielly fazer um toque para verificar a dilatação. Mesmo ela dizendo que o TP estava evoluindo lindamente, que não era necessário e que estava tudo bem, eu insisti: olha a assertividade que eu aprendi a ter! Quando ela me falou que eu estava em 6 para 7cm eu fiquei muito, muito triste. Em vez de esconder, como eu faria — e tentei fazer — no outro TP, eu chorei. Chorei muito, me abracei no Rafael, falei que era importante pra mim que ele entendesse que aquilo doía muito. Fiquei triste porque associei a dor que eu sentia àquela dor do primeiro parto e sabia que 6 pra 7 havia sido antes do hospital. No parto do Rafa, ainda haveria mais 10 horas de parto pela frente até que ele nascesse e eu me questionei se eu aguentaria de novo tanto tempo. Nesse momento eu pedi que enchessem a banheira e fui para debaixo do chuveiro. Coloquei uma toalha no chão e fiquei lá, com a água caindo em mim e pedi pra ficar sozinha. Nesse momento eu racionalizei, eu cantei pra mim mesma o “Trem das sete”, do Raul Seixas, que foi tão importante pra minha vida, que eu voltei a ouvir durante a gestação do Vinícius, que eu tantas vezes havia ouvido e me emocionado ouvindo naquele mesmo chuveiro. Ouvia a letra: “Vê! Ói que céu! Já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais”, e pensava sobre como nunca mais seria o mesmo céu, porque agora eu teria dois filhos pra cuidar, amar e de quem ser, insubstituivelmente, a mãe. De tantos poemas que fazem de mim quem eu sou, eu recitava esses versos pra me lembrar de como “o mal vem de braços e abraços com o bem num romance astral”, sobre como o nascimento, tão sublime, vem acompanhado da dor e como não há nada a se fazer nem nada de errado com isso. “A vida é assim: (…) O que ela quer da gente é coragem”, escreveu o Guimarães Rosa, quando falou dos sertões da alma. Há quem consiga parir com um suspiro ou com um espirro, há quem não sinta dor qualquer, há quem entre em transe, mas eu, não. Eu, contudo, já sabia que “quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”; eu tive apoio, tive um universo de amor me cercando, tive a certeza da segurança técnica, e fui além.
Quando eu quis, saí do chuveiro e fui ficar deitada na cama, que era onde eu queria ficar e na posição que eu escolhi, deitada de lado. A minha linda doula ficava pro lado de fora do quarto e entrava só quando eu chamava, quando vinha uma contração. Fazia malabarismos pra conseguir alcançar minhas costas e eu nem precisava mais falar onde ou como massagear, porque ela já sabia. Mesmo já sendo eu mesma uma doula e podendo palestrar sobre a “importância da doula” durante o parto, foi ela que me fez SENTIR a importância de uma doula no parto. Eu já sabia com a cabeça, ela me mostrou na pele. O Rafael era só meu: eu chamava quando eu queria só pegar na mão, mandava ele embora quando queria ficar sozinha, falava se queria abraço, se queria que ele deitasse comigo. Diferentemente do nascimento do Rafa, quando eu esperava que ele soubesse sem que eu falasse (ã? Pois é! Também não sei explicar isso), dessa vez eu falava exatamente o que ia me ajudar mais. Como eu disse, no nascimento domiciliar planejado só vai quem está inundado de respeito e de amor pelo processo que vai acontecer e por isso eu tinha certeza de que todos ficavam muito mais aliviados de saber que estavam me confortando e me ajudando no que eu precisava.
Até que chegou o momento que a Honi ofereceu que eu entrasse na banheira, e eu entrei. Ali, me pareceu que a água não ajudava a aliviar a dor. Eu estava fazendo contagem regressiva de quantas contrações ainda viriam. Foi nesse parto que eu perdi a noção do tempo, algo que raramente me acontece. Para mim, eu senti como se tivesse ficado horas na banheira. Depois fui descobrir que eu fiquei só 15 minutos e o Vinícius nasceu. Eu senti quando ele estava descendo, eu sentia que ele vinha a cada contração. Dessa vez eu não tive receio de colocar a mão e sentir a cabeça dele, os cabelinhos. Em um momento, a Honi auscultou os BCF e disse que estavam um pouco “fracos”, que não fazia tempo, mas que seria melhor eu ir pra cama, para o bebê nascer fora da água. Eu olhei pro Rafael e vi ele trocando um olhar com a Michelli e os dois com as mais fofas carinhas de preocupados. Eu olhei pros dois e falei: não se preocupem, já tá nascendo! Eu conseguia sentir a cabeça dele fazendo a “curva” pelo canal vaginal! Mesmo assim, eu ia sair da banheira, como a Honi havia solicitado. Eu me apoiei na banheira e levantei, mas senti a cabeça começando a sair, e falei: “vai nascer” — minha intenção era de dizer “não vai dar tempo de chegar até a cama porque o bebê já está saindo nessa contração mesmo”, mas foi o máximo que eu consegui traduzir em palavras. Nisso, eu me agachei, e voltei para debaixo da água, e foi o primeiro momento em que eu fiz força, junto com a contração. A cabeça saiu inteira na minha mão e com muita alegria eu acolhi a próxima contração que vinha e traria o corpinho dele. Com a mão direita eu fiz carinho na cabeça do meu filho, eu senti ele rotacionando enquanto eu o apoiava gentilmente e senti ele deslizando pela minha mão esquerda, saindo o corpinho todo na segunda contração. Enquanto o bebê sai, a gente só sente o bebê saindo, só uma quentura (não uma ardência), nada mais: nem dor, nem contração. Depois, tirei ele da água, sentei apoiada na banheira e falei, olhando pro Rafael: “nasceu”. Mais tarde o Rafael me disse que entre o “vai nascer” e o “nasceu” o intervalo foi mínimo, mas pra mim durou um tempo grande e lindo, o suficiente pra ecoar pra sempre na minha memória. No total, foram apenas 3 horas do momento em que estava em 6 cm de dilatação.
Foi assim que o Vinícius nasceu, me ajudando a realizar meus sonhos de aparar meu bebê saindo de mim e de parir em casa, reafirmando o parto  como um evento familiar, e não hospitalar. Depois, fomos pra cama, pra deitar juntinhos e parir a placenta. Em algum momento antes disso a linda Mick  havia ido ao meu jardim colher florzinhas e folhas para enfeitar a placenta, com flores pequeninas e azuis, dali da própria casa. Um gesto significativo assim só poderia vir de alguém como a Mick, tão cheia de amor e com uma alma sensível para a arte como a dela, peculiar e incrível. Enquanto eu viver eu serei grata pela presença dela naquele momento e por como ela conseguiu cristalizar de forma tão real e poética o nascimento do meu segundo filho.
Vinícius logo mamou com a força que o Rafa só teria com 1 mês de vida, me desafiou de formas distintas, me trouxe novas alegrias e foi meu companheirinho perfeito. Cada parto foi como precisava ser, a cada momento, e o registro fotográfico da Mick foi a eternização do sublime.

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